segunda-feira, 21 de julho de 2014

Fatores bioquímicos relacionados a problemas neurológicos na infância - FATORES BIOQUÍMICOS EXÓGENOS

A suscetibilidade do ovo e do embrião às influências do meio é maior durante a fase de maior atividade de diferenciação, isto é, no período embrionário, 2ª à 9.ªt semana. A atividade dos agentes mórbidos está sujeita a variações segundo a espécie e o indivíduo. Por outro lado, é por vezes impossível distinguir entre um defeito hereditário e uma afecção determinada por fator ambiente.

CARÊNCIAS NUTRITIVAS — Experimentalmente, as carências de riboflavina, ácido pantotênico, ácido fólico, ou vitamina E determinam anencefalias e exencefalias. A falta de vitamina B 1 2 poderia provocar hidrocéfalo em
animais.

A formação do ácido y-aminobutírico a partir do ácido glutâmico é controlada pela coenzima piridoxima, cuja deficiência determina o aparecimento de convulsões. A síndrome de carência de piridoxina após o nascimento foi descrita em 1954; nela o teste de sobrecarga ao triptofânio é anormal. Por outro lado, a síndrome de piridoxina-dependência, transmitida por gene recessivo, se caracteriza por convulsões repetidas ocorrendo já nos primeiros dias de vida, acentuada resistência aos anticonvulsivantes comuns e resposta imediata à vitamina B6 intravenosa.

Estas crianças não apresentam carência nutritiva da vitamina, os valores plasmáticos de piridoxal-5-fosfato são normais, porém elas dependem de uma oferta supranormal de piridoxina a fim de evitar as convulsões; a prova de sobrecarga ao triptofânio é sempre normal. Em 196, Hagberg descreveu uma terceira síndrome em uma série de crianças com epilepsia criptogenética e prova do triptofânio anormal, a qual é sempre normalizada mediante a suplementação de 100 a 200 mg de piridoxina diários; contudo, parece não haver carência real de vitamina B6 nestes casos, a concentração plasmática de piridoxal-5-fosfato é normal e o efeito terapêutico sobre a epilepsia só é verificado em poucos casos.

Sarma admite o possível efeito teratogênico da carência materna em vitamina A na produção de microcéfalo e microftalmo. A deficiência nutritiva geral, além de interferir nos mecanismos de defesa do organismo, poderia ser responsabilizada pela determinação de anencéfalo

SAIS MINERAIS — O déficit de iodo materno pode condicionar cretinismo no produto conceptual. Nas regiões bocígenas da Suíça a proporção de anomalias é de 1,45%, contra 0,40% nas demais áreas. Hurley e Svenerton produziram, em ratas prenhes submetidas a dieta carente em zinco, vários tipos de malformações.

HORMÔNIOS — O diabetes mellitus materno pode determinar malformações do sistema nervoso do produto conceptual. As lesões dos recém-nascidos se classificam em três tipos principais:malformação cerebral, hemorragia cerebral e kernicterus. 

Na série de 559 crianças geradas por mães diabéticas, 33 (6%) eram gravemente malformadas, sendo que as anomalias encefálicas (acrania, hidrocéfalo, meningocele e monstros), representaram 25% do total. É possível que desordens do balanço de carboidratos materno, especialmente durante o primeiro trimestre da gravidez, possuam efeito teratogênico. Por outro lado, como a insulina também possui tal efeito, uma superdosagem nesse período da prenhez poderia lesar o feto, devendo-se ainda salientar o possível agravamento determinado pela hipoglicemia. A hemorragia cerebral em filhos de diabéticos resulta de prematuridade, hipermaturidade e/ou parto demorado ou traumático.

Hiperbilirrubinemia é mais freqüente em filhos de mães diabéticas, mesmo em nascidos a termo, e estaria relacionada à imaturidade funcional do fígado, ao aumento da eritropoese e/ou à isoimunização ABO, que poderia ter origem na prematura degeneração da placenta. Dentre 51 recém-nascidos vivos de mães diabéticas, Hagbard observou níveis de bilirrubina superiores a 15 mg/100 ml em 43% dos casos e maiores que 20 mg em 27%; 7 daquelas crianças receberam uma ou mais transfusões.

A freqüência e a gravidade dos distúrbios encefálicos em crianças com insuficiência tireóidea congênita bastam para mostrar que um dos fatores determinantes da maturação dos centros nervosos é a secreção
dessa glândula. Contudo, as relações entre afecções neurológicas infantis e distireoses fetais ou maternas ainda não estão bem esclarecidas. As lesões encefálicas de origem distireóidea costumam manifestar-se após algumas semanas por uma redução das atividades motoras; somente depois do terceiro mês a apatia, a inércia e o retardo do desenvolvimento neuropsicomotor se tornam evidentes. O comprometimento cerebral é essencialmente de ordem bioquímica, desde que os hormônios tireóideos regulam a atividade de várias
enzimas celulares.

Bray classifica o hipotireoidismo congênito em três formas:

 1) cretinismo atireótico esporádico, provavelmente determinado por uma anomalia congênita;
 2) cretinismo bocígeno familial, com quatro variantes e relacionado a um defeito congênito do metabolismo;  3) cretinismo endêmico, por déficit dietético de iodo. Não se acredita, porém, que os distúrbios da função tireóidea da mãe possam perturbar o desenvolvimento do sistema nervoso fetal.

Do ponto de vista experimental, os resultados são pouco demonstrativos, particularmente porque os animais utilizados são roedores, com sistema nervoso pouco desenvolvido, e se baseiam na pesquisa de alterações histológicas do encéfalo, que são geralmente incaracterísticas e inconstantes. É possível que futuras experiências com macacos forneçam indicações mais precisas e, especialmente, que a pesquisa de alterações enzimáticas, e não apenas morfológicas, esclareça o problema.

5 comentários:

  1. As afecções neurológicas da infância determinadas por fatores bioquímicos atuando no período pré-natal representam campo de investigação que se amplia dia a dia, despertando interesse crescente. Muitos fatores influem no desenvolvimento do sistema nervoso e os bioquímicos são dos mais importantes. Importa frisar, contudo, que a resposta do sistema nervoso a esses agentes varia com o grau de maturação do mesmo. Dessa forma, muitas dessas afecções podem ser evitadas mediante medidas dietéticas, o diagnóstico precoce é importante, sendo desejável que as crianças ainda assintomáticas sejam descobertas por métodos de triagem laboratorial aplicados a todos os recém-nascidos. Infelizmente, pouco laboratórios dispõem atualmente de capacidade para triar todos os recém-nascidos com bateria de testes adequada e, além disso, nossos conhecimentos sobre a bioquímica de muitas dessas afecções são insuficientes. Contudo, mesmo no campo das doenças neurometabólicas, nenhuma série rotineira de testes e medidas exaustivas pode substituir a abordagem clínica cuidadosa segundo os critérios tradicionais. Assim, é necessário primeiramente conhecer os sintomas e sinais e, depois, associá-los para o estudo bioquímico ou histoquímico.

    http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0004-282X1971000300002&script=sci_arttext

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  2. O prognóstico de uma gestação é influenciado nutricionalmente pelo estado materno antes da concepção e por toda a gestação. O cuidado nutricional deve ser, portanto, iniciado o mais precocemente possível, mesmo na fase inicial da gestação, a deficiência de nutrientes pode ocasionar comprometimento do desenvolvimento fetal.

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  3. Como já discutido em sala de aula, certas carências mais comuns, como por exemplo, a carência de ácido fólico, que estão relacionadas ainda nas primeiras semanas a má formação fetal poderia ser suprida a partir de uma valorização do uso de complexos vitamínicos durante o período fértil da mulher, pelo menos. Deste modo, de maneira simples seria assegurada uma formação positiva e sem mais problemas do feto/embrião caso houvesse a fecundação do óvocito II durante esse período.

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  4. Antes de qualquer coisa é importante ressaltar que congênito não é hereditário. Durante o período gestacional, a tireoide do feto é imatura e o sistema nervoso central e outros órgãos do feto dependem do hormônio tireoidiano materno para seu desenvolvimento adequado. O hormônio da tireoide é fundamental para o desenvolvimento do cérebro do bebê. As crianças que nascem com hipotireoidismo congênito (sem função tireoidiana ao nascer) podem ter sérias sequelas cognitivas, neurológicas e de desenvolvimento, caso o problema não seja identificado e controlado precocemente. Na maioria das vezes, estes problemas de desenvolvimento podem ser evitados se a doença for reconhecida e controlada imediatamente após o nascimento. Com o objetivo de alertar sobre os sintomas do hipotireoidismo e ressaltar a importância do diagnóstico precoce foi criada uma campanha por meio do site www.mulhersemfalta.com.br. Neste site a população terá acesso a mais informações sobre hipotireoidismo, fatores de risco, causas, alerta sobre exames e autoexame e poderá, ainda, tirar dúvidas com especialistas no assunto.
    Fonte: www.mulhersemfalta.com.br

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  5. A classificação das afecções neurológicas da infância determinadas por fatores bioquímicos de origem genética constitui sempre uma tentativa provisória, em virtude do extraordinário incremento da neuroquímica, cujos progressos têm levado a profundas transformações de conceitos etiopatogênicos. Atualmente, o diagnóstico dessas moléstias é fundamentalmente laboratorial e acessoriamente clínico, violentando um dos mais arraigados dogmas da Neurologia. Cita-se, como exemplos, a abetalipoproteinemia e a heredopatia atáxica polineuritiforme, cujas semelhanças clínicas são marcantes, mas que diferem profundamente do ponto de vista bioquímico. Mesmo este critério, aparentemente tão rigoroso, não basta para dirimir todas as dúvidas, pois formas de transição existem, em que o quadro clínico e o defeito bioquímico quase se equivalem. Tal é o caso da gangliosidose generalizada de Landing e do gargulismo: ambas se caracterizam por sinais neurológicos, esqueléticos e outras manifestações clínicas estreitamente aparentadas, e, do ponto de vista bioquímico, por acúmulo neuronal de gangliosidos e visceral de mucopolissacárides.
    [http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0004-282X1971000300002&script=sci_arttext]

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