As afecções neurológicas da infância determinadas por fatores bioquímicos atuando no período pré-natal representam campo de investigação que se amplia dia a dia, despertando interesse crescente. Muitos fatores influem no desenvolvimento do sistema nervoso e os bioquímicos são dos mais importantes. Importa frisar, contudo, que a resposta do sistema nervoso a esses agentes varia com o grau de maturação.
No que diz respeito à bioquímica relacionada ao período pré-natal, quais os fatores bioquímicos a considerar? apenas os comandados pela genética incluir-se-ão também os fatores exógenos (carências nutritivas, por exemplo)? os distúrbios imunológicos, com evidente substrato bioquímico, serão considerados? os problemas ligados à hiperbilirrubinemia serão abrangidos pelo tema? e os chamados fatores tóxicos não atuam geralmente sobre os mecanismos bioquímicos ou não resultam, às vezes, de distúrbios bioquímicos?
Na tentativa de responder a esses questionamentos, tendo como base o artigo "AFECÇÕES NEUROLÓGICAS DA INFÂNCIA. FATORES BIOQUÍMICOS ATUANDO NO PERÍODO PRÉ-NATAL", de autoria de HORÁCIO MARTINS CANELAS, disponível no endereço eletrônico www.scielo.br/pdf/anp/v29n3/02.pdf ; faremos as próximas postagens de nosso blog.
Inicialmente, consideraremos os possíveis DISTÚRBIOS DO MEIO FISIOLÓGICO
OXIGÊNIO — Apesar de ser, como a glicose, uma fonte vital de energia para o sistema nervoso, o oxigênio não dispõe de um reservatório para utilização nas emergências.
O cérebro fetal é particularmente tolerante à anoxia, não obstante seja o encéfalo o órgão mais sensível ao déficit de oxigênio. Estudos realizados sobre o metabolismo cerebral de fetos humanos, examinando fragmentos de córtex frontal, núcleo caudado, núcleo dorso¬mediano e bulbo, retirados imediatamente após a morte de fetos de 20 semanas, de prematuros e de recém-nascidos de termo. Verificaram que:
1)o consumo de oxigênio das quatro regiões aumenta com a idade fetal, exceto o do bulbo, que se mantém constante;
2) por outro lado, a anoxia afeta todas as regiões, exceto o bulbo, que é pouco comprometido;
3) o córtex do feto humano é mais maduro metabolicamente ao nascimento do que o de outras espécies.
Experimentalmente, nos estádios precoces do desenvolvimento, a anoxia pode determinar malformações encefálicas. Apenas a presença de metabolismo anaeróbio no cérebro muito imaturo o protege da anoxia. O quadro clínico desta, tão conhecido dos pediatras, caracteriza-se por agitação, convulsões, rigidez, coma e morte.
O aborto iminente é definido como o sangramento uterino que ocorre antes da 28.a semana da gravidez, não seguido por abortamento dentro de uma semana. Entre os 472 pacientes que haviam dado à luz crianças vivas ou natimortas e constituíam cerca de 60% dos casos de aborto iminente, pois nos demais a gravidez não prosseguiu após a 28.a semana. Comparado com a população normal, houve cerca de 3 vezes
mais mortes obstétricas ou perinatais nesse grupo, sendo que, em dois terços dos casos, não houve qualquer concausa; houve o triplo de partos prematuros; muitos recém-nascidos eram malformados e freqüentemente a época da hemorragia coincidia com a tabela cronológica de desenvolvimento da anomalia; houve dois casos, bem caracterizados, de paralisia cerebral.
GLICOSE — A glicose é outra das principais fontes energéticas do encéfalo, sendo sobremodo conhecida a relação entre glicemia e ocorrência de convulsões. O metabolito essencial do encéfalo em desenvolvimento é a glicose e o oxigênio consumido destina-se quase exclusivamente à sua transformação. O teor de glicogênio do fígado, pulmões e diafragma aumenta com a idade fetal; o do coração e o do rim mantêm-se constantes da 9.a à 20.a semana; o do córtex cerebral diminui com a idade.
A glicólise em anaerobiose é um dos fatores primordiais da vida fetal. O desdobramento da glicose em ácido lático é, filogeneticamente, um processo mais primitivo, mais precoce e menos eficaz que o da oxidação. É necessário que cerca de 9 a 12 moléculas de glicose sejam desdobradas em ácido lático para que se libere a mesma quantidade de energia que a proporcionada pela oxidação de uma só molécula de glicose em água e gás carbônico. Mas é a capacidade do encéfalo fetal de funcionar em anaerobiose que condiciona a integridade futura do cérebro em via de desenvolvimento. O bulbo, que é o setor menos vulnerável ao nascimento, contém o maior teor de ácido lático. Este ácido, se não for eliminado por oxidação e excreção, não pode ser indefinidamente formado, o que explica porque, no feto e no recém-nascido, a anoxia prolongada termina por lesar o encéfalo, mas somente após um intervalo muito maior que no adulto.Verificou-se que as mulheres com hiperêmese durante o primeiro trimestre da gravidez têm mais filhos malformados (6 %) que as demais, e concluiu que a depleção de glicogênio na mãe e no feto durante esse período interfere nos processos de oxidação e determina distúrbios na morfogênese.
SÓDIO E CÁLCIO — Hipernatremia, especialmente determinada pelo diabetes insípido, pode ocasionar retardo mental; a mesma relação tem sido descrita na hipercalcemia de várias causas.
Na próxima publicação apresentaremos os fatores bioquímicos exógenos que podem afetar a formação neurológica do feto. São informações interessantes, como as apresentadas aqui, que permitem ao estudante de medicina, como eu, associar os ensinamentos de Neuroanatomia, Bioquímica Clínica e Embriologia à má formação fetal. Até a próxima semana!
Muito interessante o assunto exposto. Vale acrescentar que, a forma como a mãe passa durante a gestação contribui diretamente na condição neurológica do feto. O desenvolvimento intra-uterino é um período de atividade metabólica extremamente alta e acelerada, de formação de sistemas e síntese de substâncias fundamentais. A nutrição do feto depende exclusivamente da nutrição materna e por isso, problemas na alimentação da mãe afetam diretamente o crescimento do mesmo. A escassez de alimentos durante essa fase funciona como um sinalizador para o feto, alertando-o para uma vida futura de falta de nutrientes. Assim, o feto desenvolve um metabolismo econômico, mediado por insulina, visando a uma melhor adaptação num ambiente de estresse nutricional. As conseqüências porém não se restringem somente à gestação. Neste caso, se o déficit de nutrientes não ocorrer na vida adulta, essa adaptação adquirida causará uma maior predisposição para o desenvolvimento de diabetes. Além disso, o uso do álcool durante a gestação pode desenvolver a Síndrome do Alcoolismo Fetal – SAF que é o conjunto de sinais e sintomas causados pelo consumo de álcool pelas mulheres grávidas. A SAF é caracterizada por retardo do crescimento e alterações neurológicas ou dos traços faciais do feto. “A mãe que ingere álcool durante a gravidez o transmite para o feto através das trocas de nutrientes na placenta. Não há uma quantidade segura de álcool que possa ser ingerido durante a gestação, mas dependendo da fase da gravidez, pode aumentar o risco de surgimento da síndrome, sendo pior nos primeiros três meses, quando se inicia a formação dos órgãos”, afirma o neurologista Dr. José Luiz Dias Gherpelli.
ResponderExcluirAs consequências do álcool no organismo do bebê podem ser de leve a grave. Quando algumas áreas do cérebro são afetadas pela ingestão de álcool durante a gravidez, a criança pode ter má coordenação motora, retardo mental, dificuldade de aprendizado e de relacionamento.
http://www.einstein.br/einstein-saude/gravidez-e-bebe/Paginas/sindrome-do-alcoolismo-fetal-e-causada-pela-ingestao-de-alcool-na-gravidez.aspx
http://biobio-unb-extremos1.blogspot.com.br/2008/06/bioqumica-da-desnutrio.html
Os sintomas neurológicos estão entre as manifestações mais proeminentes da hipernatremia em recém-nascidos e frequentemente alertam o médico sobre a possibilidade de sua presença. No entanto, em muitas crianças, o diagnóstico passa despercebido inicialmente e somente é realizado quando essas apresentam lesão cerebral irreversível.
ResponderExcluirA microcefalia é uma condição rara onde a calvária e o encéfalo são pequenos, mas a face tem tamanho normal. Crianças com essa patologia têm um retardo mental grave, pois o encéfalo é subdesenvolvido. A causa da microcefalia é frequentemente incerta. Alguns casos parecem ter origem genética (autossômica recessiva), e outros são causados por fatores ambientais. A exposição a grandes quantidades de radiação ionizante, agentes infecciosos (por exemplo o citomegalovírus, vírus da rubéola e o toxoplasma gondii) e a algumas drogas (alcoolismo materno) durante o período fetal são fatores contribuintes em vários casos. Mesmo protegidos por tantas barreiras na barriga da mãe, a criança está exposta a milhares de substâncias imagináveis que podem afetar seu desenvolvimento e também pode ter a falta de substâncias essenciais ao seu desenvolvimento, como a glicose e oxigênio, que foi citado ao longo do post.
ResponderExcluirfonte: embriologia clínica - Moore
Por conta das alterações hormonais, a maioria das grávidas apresenta um quadro de êmese gravídica, ou seja, vômitos durante a gravidez. Essa é uma alteração fisiológica natural da gestante, que pode ser controlada com uma alimentação saudável e fracionada. Já a hiperêmese gravídica é o excesso de náuseas e vômitos durante a gestação, impedindo a gestante de comer adequadamente e atrapalhando a rotina.
ResponderExcluirOs vômitos persistentes podem causar desequilíbrio hidroeletrolítico e desidratação para a gestante e depleção das reservas de glicose, que podem acarretar em baixo peso e nascimento de bebê prematuro.
Os fatores etiólogicos da Doença Mental que atuam no período pré-natal envolvem causas genéticas e ambientais, consistindo nos fatores etiológicos mais importantes no surgimento da DM, com cifras ao redor de 50% dessa população. É importante ressaltar que muitas vezes não é possível, ainda, estabelecer com clareza a causa da deficiência mental, mas alguns fatores que podem dar origem a casos de deficiência mental podem ser apontados:
ResponderExcluirCausas Pré Natais:
Estes fatores incidem desde a concepção do bebê até o início do trabalho de parto:
Desnutrição materna;
Má assistência médica à gestante;
Doenças infecciosas: sífilis, rubéola, toxoplasmose;
Fatores tóxicos: alcoolismo, consumo de drogas, efeitos colaterais de remédios (medicamentos teratogênitos afetam a estrutura e o desenvolvimento da anatomia), poluição ambiental e tabagismo;
Fatores genéticos:
Alterações cromossômicas (numéricas ou estruturais), ex. : síndrome de Down, síndrome de Martin Bell alterações gênicas, como erros inatos do metabolismo (fenilcetonúria) síndrome de Williams, esclerose tuberosa, etc.
Causas perinatais:
Estes fatores incidem do início do trabalho de parto até o 30º dia de vida do bebê:
má assistência ao parto e traumas de parto;
hipóxia ou anóxia (oxigenação cerebral insuficiente);
prematuridade e baixo peso (PIG - Pequeno para Idade Gestacional);
icterícia grave do recém nascido - kernicterus (incompatibilidade RH/ABO).